.Prefeitura de Hidrolândia

.Prefeitura de Hidrolândia

segunda-feira, 16 de março de 2015

Os labirintos que levam ao Planalto

Os labirintos que levam ao Planalto


Marconi Perillo tem tarefa árdua pela frente em seu objetivo de trilhar carreira nacional. Apenas o goiano Alfredo Nasser esteve à frente do comando do Brasil – e por poucos dias


Quem acompanha os bastidores da política percebe que o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), se propôs a cumprir o que se chama de jornada do herói. Ele deseja ter uma experiência em âmbito nacional.

Marcado pela militância centrada no Estado, Marconi focou até aqui suas ações nos problemas internos de Goiás. O currículo nacional está repleto de lacunas – apesar de uma honrosa vice-presidência no Senado.

Ao longo de três gestões à frente do governo de Goiás, ele iniciou a quarta administração com a necessidade pessoal de expandir sua ação para o País. Na mitologia, se diz que a jornada de um herói ocorre quando ele se propõe a buscar algo, seja um cálice sagrado ou o poder inatingível. A jornada é sempre tormentosa e difícil (daí as grandes narrativas), mas o herói se revela no meio do caminho.
A mitologia é quase sempre um conjunto de repetições de atos e performances. Mudam-se cenários e personagens, mas a narrativa é sempre a mesma.

De antemão a plateia torce e aplaude a preparação do herói. Mas se conforma com a realidade: a jornada depende de outros fatores, como o recurso ao ‘mestre’ – que realiza a preparação do herói. E em muitos casos de exércitos, que pavimentam a chegada épica do vencedor.

Ter destaque nacional não é tarefa fácil. Pouquíssimos goianos conseguiram cavar espaço fora do Estado, mas todos fracassaram no objetivo maior: a presidência da República. A maioria figurou como coadjuvante, tornando-se mera interlocutora de interesses alheios.

Para piorar, hoje não temos nenhum goiano no primeiro escalão. Com isso, Goiás perde muito. Quando o Estado tem ministros, por exemplo, os recursos chegam a rodo – seja para corrupção seja para realização de obras. Reportagem da revista Veja, de 2001, por exemplo, mostra que quando políticos de Goiás figuraram no cenário nacional, o Estado liderou o ranking de recebimento de recursos: em dois anos, de 1999 a 2001, Goiás teria recebido R$ 56,5 milhões enquanto Santa Catarina marcava R$ 47 mi na segunda colocação.

Em Goiás, com mais protagonismo nacional do que Marconi, existem pelo menos oito políticos ou figuras públicas que tentaram esta missão nos últimos 200 anos: Iris Rezende (PMDB), Henrique Santillo (PSDB), Henrique Meirelles (PSD), Demóstenes Torres (DEM), Ronaldo Caiado (DEM), Alfredo Nasser (UDN), Leopoldo Bulhões (Partido Republicano) e Joaquim Xavier Natal (Supremo Tribunal Federal).

Quase todos fracassaram na missão maior. Enquanto uma parcela deixou um rastro de amadorismo em seu desempenho em âmbito nacional, outros cumpriram a fase inicial, mas fraquejaram no discurso e articulações para seguir em frente.

Dinheiro para Goiás

Na gestão de Fernando Henrique Cardoso, Ovídio de Angelis ocupou a Secretaria de Política Urbana, cargo com status de ministério.

Durante sua gestão se envolveu em acusações, como a de favorecimento de Goiás na hora de despachar recursos. Conforme reportagem da Folha de S. Paulo, em 1999, ele teria liberado R$ 32,2 milhões para o Estado em um único mês – 63% do total liberado pelo governo federal. Na época, FHC não sabia o que “fazer com o ministro”, se o demitia ou se mantinha no cargo.

 Iris Rezende reinou na era Sarney

O cacique Iris Rezende ocupou dois ministérios: da Agricultura (na gestão de José Sarney) e Justiça (governo de Fernando Henrique Cardoso). Ele esteve muito próximo de uma disputa nacional. Mas acabou sofrendo baixas em seu próprio Estado – o então governador Henrique Santillo, por exemplo, optou em não apoiá-lo.

Em vez de caminhar com Iris, que teria deixado o Ministério da Agricultura para participar das convenções do PMDB, Santillo apoiou Ulysses Guimarães. Iris não contava com apoios determinantes, como do peemedebista Pedro Simon, que chegava a ignorá-lo como pré-candidato.
Na época, Iris era considerado o melhor nome do partido, com histórico de safras recordes na agricultura e determinação política. No final da década, entretanto, já apresentava uma lista de muitos desafetos – em Goiás, por exemplo, protagonizou o fechamento do Diário da Manhã, criando um clima para que os próprios goianos esvaziassem suas pretensões.
Sem ouvir as pesquisas qualitativas, o PMDB apresentou o mote do “bote fé, bote fé no velinho, ele sabe o que faz”. Ulysses Guimarães foi eleito, com Waldir Pires (PMDB-BA) ocupando a segunda colocação. Iris conquistou 30% dos votos da convenção e amargou uma derrota para sempre. E a população optou por um jovem até então desconhecido, o ex-governador de Alagoas Fernando Collor de Melo.

Quatro anos depois, tinha passado o ‘timing’ de Iris. O paulista Orestes Quércia assumiu a disputa do PMDB em 1994. Iris ainda tinha poder – não a ponto de disputar, mas ao menos a de sugerir caprichos políticos. Por isso sugeriu a inexpressiva Iris de Araújo, sua esposa, como candidata à vice-presidente.

Conservadorismo de alto nível

Apesar de Iris Rezende (PMDB), com espírito populista, ter sido o que mais próximo chegou da presidência da República (ainda que distante), os conservadores foram mais ousados.
Os políticos goianos da ala conservadora não se intimidaram com o jogo nacional. Demóstenes Torres (ex-DEM), por exemplo, usou o palanque de senador para tornar-se um dos políticos mais influentes no período que se inicia em 2006 e segue até 2012. Estrela da oposição, seu nome passou a ser cotado para os melhores cargos do País.

Nos bastidores cogita-se que o promotor e então senador goiano foi chamado a ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) ou no Ministério da Justiça. Para isso, bastaria trocar de partido – saindo da oposição rumo à base do presidente Lula, que se intimidava com seu discurso moralista e bem articulado.

Em 2011, o nome de Demóstenes era a senha para a política proba e honesta. Seu nome era cogitado para disputar a presidência da República em 2014. Favorito para concorrer às eleições da Prefeitura de Goiânia, ele preferiu os holofotes nacionais. Ao fazer esta escolha, deu a dica que o PT nacional precisava para acender o sinal de alerta.

Não demorou e o governo federal, por meio da bancada petista, organizou a operação Monte Carlo, ruindo todas as esperanças da população goiana, que acreditava e apostava em Demóstenes Torres como político de projeção nacional.

A estratégia dos petistas era exatamente retirar do mapa potenciais candidatos que disputariam as eleições com Dilma Rousseff. Em poucos meses, o maior herói goiano daqueles dias, Demóstenes estava de joelhos, sem sequer o cargo de senador.

Quem voltou a ocupar o espaço deixado por Demóstenes foi o senador Ronaldo Caiado – que ousou, em 1989, disputar as eleições do Brasil contra candidatos como Collor de Melo, Lula e Brizola.
Apesar de um discurso ordenado, cultura e ideologia clara, Caiado foi estigmatizado durante toda a carreira como homem de direita e frio. Até o desaparecimento de Demóstenes Torres, era apenas sombra do senador. Fazia um papel de coadjuvante no cenário nacional.

Agora é o nome mais expressivo da oposição, ao lado de Aécio Neves (PSDB). Em 2014, recuou de disputar como vice-presidente em uma chapa com o tucano. E não deve se enganar: os holofote significam sucesso, mas também um alvo fácil.

Nasser, primeiro-ministro por 12 dias

Do grupo, os que chegaram mais próximo são Alfredo Nasser e Bulhões. Tornaram-se políticos destemidos e respeitados pela cultura. Arquivos de jornais da época revelam, por exemplo, a admiração que se tinha pelos dois, considerados virtuosos e educados.

Articulado, homem de cultura e orador exuberante, Alfredo Nasser foi alçado ao palco nas décadas de 1940 e 1950. Sua presença no cenário era do herói de coragem. O perfil encarnado é antagonista dos que atuam solitariamente, sem estratégia e exércitos.

O pico da encenação de Alfredo foi o Ministério da Justiça e Negócios Interiores do Brasil, nos anos de 1961 a 1962. Para se ter ideia com quem Nasser trombava nos corredores, seu antecessor era Tancredo Neves – presidente eleito em 1985 de forma indireta.

Durante a gestão de João Goulart, na curta passagem do parlamentarismo brasileiro, ele esteve à frente da condução do País por 12 dias. Tancredo, o primeiro-ministro, foi até o Vaticano. E Nasser o substituiu.

O jornal O Estado de S. Paulo da época descrevia Nasser como o “ministro que faz diferença, pela lhanesa e educação, que surpreenderá o País em cargos ainda mais altos”.

Leopoldo Bulhões parou em um ‘level’ abaixo como substituto, mas em um grau acima como ministro. Ele foi ministro da Fazenda, cargo no costume político abaixo da presidência, pois lida com as finanças – o aspecto que sustenta um governo.

A principal característica de sua ação nacional foi o protagonismo na implantação de um plano de estabilização monetária proposto pelo presidente Rodrigues Alves – ele próprio ex-ministro da Fazenda.

Esteve em um grupo seleto de ministros, que geralmente origina presidentes. Para se ter ideia, Getúlio Vargas e Fernando Henrique Cardoso passaram pelo mesmo cargo antes de usarem a faixa presidencial.

Bulhões tentou se manter nacionalmente na vida pública, mas acabou prefeito de Petrópolis (RJ), para onde se mudou após a passagem pelo ministério e Senado. Existem relatos de que a ideia de se criar o Ministério da Agricultura tenha partido do goiano, bastante ligado ao presidente.
Depois destes dois ministros, Goiás teve experiências de relevo apenas nas décadas de 1980 e 1990, com o ex-governador Iris Rezende.

Goianos chegaram na Esplanada

Se a política provinciana já é difícil, a nacional equivale a uma participação de poucos segundos em um filme de grande expressão. Os segundos são contáveis em tempo real: um, dois, três. E próxima cena.

Neste grupo dos que protagonizaram participação relâmpago na política nacional não faltam os ministros por indicação dos partidos e coalizões – caso de Flávio Peixoto, Lúcia Vânia, Lázaro Barbosa e Ovídio de Angelis.

Intelectual e filho do ex-candidato ao governo de Goiás Peixoto da Silveira, Flávio Peixoto foi o primeiro ministro do Meio Ambiente da história do País, durante a gestão de José Sarney. Ficou 11 meses no cargo, com pouquíssima visibilidade.

Lázaro Barbosa é outro peemedebista da base de Iris Rezende que ficou poucos segundos no cargo de ministro da Agricultura, durante a gestão de Itamar Franco. Ocupou a pasta durante sete meses e tentou implantar ações para facilitar o acesso da população às cestas básicas.

TCU

Outros goianos conseguiram destaques em áreas diferentes. Depois de ser senador, Iram Saraiva ocupou a presidência do Tribunal de Contas da União (TCU), tendo como missão fiscalizar os gastos do governo federal.

Após abandonar a condução da corte, voltou a fazer política, mas como vereador, em Goiânia. Jamais manifestou interesse em voar alto, como disputar uma presidência.

O interesse maior era se manter na política estadual com destaque – o que desempenhou até 2012, quando optou em não se candidatar à reeleição.

Ovídio era indicado pelo PMDB e optou em trocar a camisa para o PSDB, o que ajudou a permanecer por mais anos no ministério oferecido aos tucanos.

Outra que foi indicada para atuar junto à FHC foi a senadora Lúcia Vânia, que ocupou a Secretaria Nacional de Assistência Social, pasta com dignidade de ministério.

Nenhum comentário:

Postar um comentário